Um homem idoso lança, disfarçadamente e com força, uma sacola plástica cheia de lixo, e assim ela voa fazendo um arco sobre as margens do rio. Quando o saco de lixo aterrissa perto de dois homens que estão ali para nadar, ela e espirra água para todos os lados.

É temporada de chuvas no norte da Índia, mas o sol está rachando, e o termômetro marca 38 graus Celsius. Os dois homens estão aliviados com o banho refrescante no Ramganga, um afluente do Rio Ganges.

Cada vez mais pessoas chegam para jogar entulho no rio, mas isso não os incomoda – nem um pouco, afirma um deles, que é policial e se chama Ajay Sharma.

"O lixo não é problema, pois o rio é sagrado", diz Sharma. Essa explicação é confusa para muitos, mas faz todo o sentido para os indianos que vivem no local: os rios do país são todos deuses e deusas incorporados em água e, acredita-se, que são tão fortes e poderosos e purificam não apenas todos os pecados, mas também eles próprios.

© Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

A cada dia, os indianos levam seus mortos para as margens dos rios, onde os queimam em piras. Os cabelos de recém-nascidos são espalhados pela água. O mergulho no Ganges limpa os hindus de seus pecados e a maioria dos indianos guarda um pouco dessas águas em sua casa.

A crença no poder dos rios para limpar e purificar tudo que é mau é parte do que atrai milhares de turistas a cada ano, mas também leva a uma ideia errada de que nada pode causar danos aos rios – seja lixo doméstico, esgoto não tratado, resíduos químicos tóxicos liberados por curtumes, ou fábricas de latão.

"A parte de cima do rio é muito limpa. É limpa e pura, e não há nada de poluição", afirma o Dr. J.K. Pathak, um estudioso que trabalha questões da água. Pathak cresceu no topo de uma área montanhosa, onde fica a fonte do Ramganga. Quando criança, a única coisa que sabia era que o Ramganga era um rio saudável e limpo. "Mas, quando saímos das áreas altas e vem para a parte baixa, especialmente quando passamos por grandes cidades, é possível ver que a qualidade da água se deteriora", diz ele.

Durante a temporada de chuvas, a água da chuva dilui a poluição – é o único período do ano em que as pessoas ainda dão um mergulho no Ramganga. Na temporada de seca, entretanto, a água é negra. Em alguns lugares, fica até um cheiro de imundície, afirma Pathak.

© Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

Ele retira amostras de diferentes trechos do rio. Em cidades como Moradabad, enquanto muitos do 1 milhão de habitantes ganham a vida na indústria do latão, os níveis de poluição da água são particularmente ruins. Nem todos se dão conta, e as cabras que pastam às margens dos rios ficam indecisas, conforme banhistas chegam para jogar seu lixo no Ramganga.

"Eu não nadaria aqui. Causa doenças", diz Pathak.

No ano passado, o conselho central de controle de poluição da Índia anunciou que mais de metade dos canais fluviais do país estão poluídos — o Ramganga é apenas um de 275 rios.

Implicações para o futuro

Projeta-se que dentro dos próximos cinco anos, a população da Índia será maior do que a da China, tornando-a o maior país do mundo. Esse crescimento rápido da população, junto com a urbanização e o desenvolvimento econômico, que demanda o uso da água pela agricultura e pelas indústrias, apenas agravará a situação.

"Com o aumento da população, a demanda de água doce para todos os usos é impossível de suprir", de acordo com o relatório.

Rios como o Ramganga costumavam ser fonte vital de água doce. Enquanto persistir a crença de que o lixo não fará mal à saúde do rio, é claro que a água dele não pode ser usada do mesmo modo que era antes. Por gerações, as pessoas e seus animais vinham para o rio nadar, se banhar e aplacar sua sede. Mas isso mudou. Agora, na maior parte do ano, produtos químicos industriais, escoamento agrícola e águas residuais não tratadas de milhões de casas fazem o rio ficar imundo e escuro.

©Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

Entretanto, ninguém quer assumir a responsabilidade. Os habitantes da cidade acusam os fazendeiros de uso extensivo de pesticidas e fertilizantes químicos, os fazendeiros culpam o trabalho nas oficinas de latão e as indústrias reclamam do governo.

"É um jogo de culpados", afirma Archana Nirmal Kumar, gerente de comunicação e advocacia do programa da WWF para rios, zonas aquáticas e águas da Índia.

O primeiro passo da WWF para limpar o Ramganga foi fazer com que cada envolvido compreendesse que, por serem, atualmente, parte do problema, eles podem ser parte da solução.

Com o Ramganga Mitras — amigos do Ramganga — a WWF começou um movimento que conecta pessoas de todas as partes da sociedade. Empresários, fazendeiros, autoridades, cientistas e ambientalistas se encontram em workshops, falam a respeito de sua responsabilidade compartilhada e agora estão unidos por uma causa em comum: contribuir com a limpeza e purificação do rio.

A possibilidade de mostrar às pessoas o modo como as amostras de águas da parte de cima da corrente diferem das amostras da parte de baixo as ajuda a entender a gravidade da situação, Pathak afirma, antes de listar a quantidade de produtos químicos e poluentes que são encontrados no rio. Alguns deles derivam de fertilizantes, outros estão associados à indústria do latão, outros são, simplesmente, lixo doméstico e esgoto não tratado.

Pathak aderiu ao movimento porque acredita que a lista de soluções para limpar o rio é tão longa quanto a lista de poluentes. Plantas para tratamento de águas residuais, e cultivo e práticas industriais mais limpas são apenas algumas das soluções. Muito já foi feito, diz Pathak, e desde que as pessoas trabalhem juntas, há esperança. "Por que não?" ele diz, seus olhos piscam enquanto sorri.

Bareilly fica a duas horas, corrente abaixo, de Morabad – onde Pathak trabalha, e é outra cidade bem movimentada com trânsito caótico que poucos de fora da Índia conhecem. Na Índia, entretanto, elas são conhecidos como capitais ricas do distrito, pois ambas ficam em Uttar Pradesh, uma província onde até fazendeiros de subsistência têm condições de morar em casas de concreto. 

As estradas rurais em Bareilly são cheias de buracos e as vacas passam pelo meio do tráfego quando bem entendem. Fornos altos antigos vermelhos como cinabre, assim como os tijolos produzidos neles, marcam a paisagem. A cada pequena intersecção, há pequenas cabanas ondem homens se reúnem para beber chai; é tão doce que é servido em copinhos de shot.

O caminho para Firozpur, onde Virender Pal mora, é acidentado, passam muitas cabras que ele olha do telhado. Pal morou nesta vila rural a vida inteira, e viu a mudança. Cabanas de madeira foram trocadas por casas de concreto, há mais riqueza e agora a maior parte dos fazendeiros possui muitas vacas e cabras. Suas terras são grandes o suficiente para que alimentem sua família e vendam o restante no mercado. O acesso à educação, ele diz, é talvez uma das maiores mudanças. Todos os seus cinco filhos, ele afirma com orgulho, terminaram o ensino médio. Três foram para a faculdade, e um é bancário na cidade.

Virender Pal. © Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

Mas nem tudo no desenvolvimento é bom. Novas práticas agrícolas foram introduzidas e os fazendeiros utilizam pesticidas e fertilizantes químicos. Muitos acreditam que quanto mais usam, melhor a colheita será. Esse exagero no uso de produtos químicos, que escorrem para os rios durante as chuvas, é uma das principais razões para a grande poluição do Ramganga.

"Quando éramos poucos, costumávamos tomar banho no rio e quando tínhamos sede, bebíamos sua água", afirma Pal. Ele não se lembra de quando, mas em algum momento durante sua juventude, a água do rio ficou escura. As vacas pararam de bebê-la.

Pal foi um dos primeiros fazendeiros a entrar no movimento Ramganga Mitras e a fazer um juramento para proteger o rio. "Faremos a nossa parte para limpar e purificar o rio", Pal cita o primeiro verso do juramento do Ramganga Mitras. Agora, ele incentiva os outros a fazerem o mesmo.

É uma tarefa difícil muitas vezes, mas todos a levam muito a sério.

A WWF o ensinou como fazer pesticidas orgânicos com estrume e urina de vaca, farinha, folhas de nim e açúcar de cana – ingredientes naturais que são fáceis de achar e não poluem o rio.

Outros fazendeiros estavam céticos. "Eles me disseram que se eu não utilizasse químicos, minhas colheitas não iriam vingar", afirma Pal. Ele, então, mostrou que estavam errados: com os pesticidas naturais, menos pragas de colheita entraram em suas terras, e tanto a qualidade quanto a quantidade de sua colheita aumentou; ele agora colhe 30 a 40% a mais de produção do que antes.

Os pesticidas orgânicos podem ser produzidos praticamente sem custo e geram produtos melhores, esses são argumentos convincentes para proteger o meio-ambiente.

A notícia do pesticida milagroso se espalhou rapidamente e agora, mais de 3.000 fazendeiros utilizam pesticidas orgânicos feitos em casa – uma parte da equação para limpar de vez o Ramganga.

©Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

Os fazendeiros desempenham um papel vital, mas para salvar o rio, as pessoas de todas as áreas precisam se convencer de que seu papel importa, sejam elas fazendeiras, como Pal, ou autoridades importantes como Shiv Shay Awasti, chefe de desenvolvimento de Bareilly, o lar de 4,5 milhões de pessoas no norte da Índia.

Awasti tem orgulho das conquistas de seu distrito na mitigação das mudanças climáticas. Plantas de biogás foram plantadas, lagos, restaurados; árvores, plantadas e luzes solares, instaladas. Essas são medidas que o governo pode tomar de forma relativamente fácil, ele declara; porém, em relação ao consumo de água da cidade sua expressão facial revela preocupação: "Em maio e junho deste ano, tivemos escassez de água — isso nunca ocorreu antes", afirma.

Sentado atrás de uma grande mesa, Awasti fala dos problemas da água. A conservação da água, ele diz, "é uma das questões mais importantes para o futuro".

Por causa das mudanças climáticas, as chuvas de temporada estão diminuindo e as águas subterrâneas diminuem um pouco mais a cada ano. Ao mesmo tempo, a Índia experimenta um crescimento populacional extraordinário, o que significa que mais água está sendo consumida.

Um rio limpo significaria mais água acessível à população, isso diminuiria a pressão sobre as águas subterrâneas. Esse costumava ser o caso, mas agora, o Ramganga está poluído demais para que sua água seja utilizada.

A limpeza do rio é um compromisso significativo e só pode ser alcançada se todos participarem.

"É uma lição que aprendemos no passado. Se as pessoas não participam, nossa missão falha", ele declara.

Um parceiro como a WWF pode ajudar Awasti a conectar diferentes membros da comunidade, desde fazendeiros simples até empresários poderosos. "Eles reúnem pessoas", ele reconhece, enquanto volta a assinar documentos oficiais. Awasti também aderiu ao Mitras.

De volta a Moradabad, Hemant Juneja está prestes a começar a utilizar uma nova tecnologia que monitora a quantidade de água que á utilizada na fabrica de latão e que trata a água residual. Juneja é umas das 50 principais exportadoras da área — uma conquista impressionante, considerando que Moradabad é a capital de latão da Índia. Sob o Império Mughal, que se espalhou pela Índia, Afeganistão, Paquistão e Blangadesh, Moradabad era conhecida como Pital Nagru — a cidade do latão. Antes e agora, quase todos os produtos de latão vendidos em toda a Índia foram derretidos, temperados e modelados por mãos habilidosas na cidade indiana.

A partir das fábricas, nos arredores da cidade, abajures, castiçais, molduras de espelhos e mesas de café são enviadas a casas de decoração de luxo na Europa e na América do Norte.

©Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

Com orgulho, Juneja aponta para um livro na mesa de café sobre os maiores líderes da indústria na cidade, que apresenta sua história em destaque. E o sucesso, declara, vem com responsabilidade.

"Se ganhamos dinheiro aqui, temos de dar um retorno à sociedade também. E devolver a água limpa para das pessoas é o mínimo que podemos fazer", ele afirma. Por mais de 200 anos, a produção de latão estimulou o crescimento de Moradabad, mas o uso extensivo da água para enxágue e galvanização – para os quais cobre, níquel, prata e ácido são necessários – piora a poluição do rio.

Em alguns anos, o lençol freático pode estar tão baixo que não haverá mais água para a indústria. Para um negócio grande como o de Juneja, isso causaria um grande impacto. "Precisamos nos preparar para os problemas que enfrentaremos em relação à água nos próximos anos", ele declara.

Mas nem todos os fabricantes de latão pensam assim. Muitas das 10.000 pequenas oficinas de latão na cidade têm muitas dificuldades para seguir adiante. Para eles, planejamento para o futuro significa pensar muitos dias à frente.

"A questão era, como podemos convencê-los?" afirma Sanket Bhale, gerente de administração da água da WWF na Índia.

Salvar o meio ambiente não é um argumento convincente para todas as pessoas. Economizar nos gastos, entretanto, é. O retorno do investimento por instalar novas tecnologias que diminuam o uso de água e torne a produção geral mais limpa ocorre em dois anos. Junto com o Banco da Índia, a WWF busca conseguir empréstimos com condições favoráveis para que produtores pequenos poluam menos, se tornem empresas mais verdes – e economizem em longo prazo.

Ao perceber que salvar o rio tem lógica financeira, mesmo em curto prazo, ajudará a trazer outras pessoas para a causa. Como um dos mais bem-sucedidos empresários na área e ex-presidente da associação dessa indústria, Juneja será o exemplo. "Se eu começar, muitas pessoas que se espelham em mim também começarão. E isso deve começar de algum lugar – de outro modo não haverá água para nós no futuro", ele declara.

©Thomas Cristofoletti / RUOM / WWF-UK

Em apenas alguns anos desde seu início, mais de 4.000 pessoas aderiram ao Ramganga Mitras. Com orgulho, eles exibem seus broches, bonés e camisas do Mitras. São embaixadores de um futuro no qual o Ramganga e os demais rios da Índia serão novamente tão limpos que as pessoas poderão nadar, se banhar, e saciar sua sede neles.

Mas 4.000 membros não é o suficiente, Kumar da WWF afirma "Nada pode ser conquistado em isolamento. Um fazendeiro pode apenas fazer uma pequena contribuição; para que isso funcione, temos de trazer todos para esta causa”.

Há muitas pessoas a se convencer e o caminho à frente deles é longo. Mas, a cada dia o movimento está crescendo, e todos que já aderiram a ele têm certeza de que seus esforços valerão a pena.

Outros países, afirma Pal, fizeram um avanço semelhante. Recentemente, ele leu a respeito do Tâmisa, e sobre como a poluição era tão alta que o rio foi declarado biologicamente morto em 1957. Outros rios, como o Reno, na Alemanha, estavam em situação semelhantemente grave. Nos EUA, o rio Cuyahoga, que alimenta os Grandes Lagos da América do Norte, estava tão poluído que pegou fogo em 1969.

"Eu sei que o mesmo está acontecendo aqui, e que tudo que estamos fazendo não é bom para o meio-ambiente", afirma Pal.

Hoje, o canal viário de Londres, o Reno e o Cuyahoga estão limpos e saudáveis. A história deles dá esperança e inspiração para o que podemos conquistar na Índia também.

"Um dia, eu quero ver meus netos nadarem no rio, sem me preocupar com sua saúde, nós podemos fazer isso". Se todos trabalharmos juntos, podemos fazer isso".

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